Dive (segue a reedição da matança)

Costumava sentar-se no parapeito da janela e ficar olhando o sol se pôr. Gostava da temperatura daquela hora. O vento era frio, enquanto os vetigios de calor no granito do parapeito da janela conseguiam manter seus pés de unhas pintadas de preto ainda quentes. Gostava daquele vento. Gostava do jeito que balançava seus cabelos, sua roupa. Tinha sempre a impressão de que logo os créditos começariam a subir por aquele ceu multicolorido e tudo estaria acabado. Seria invadida de uma paz imensa e absoluta, e nada seria capaz de abalá-la. Nem fome, nem sono, nem tristeza, nem decepção.

Os creditos nunca subiam. Por mais que ela esperasse. Costumava, depois daquilo, descer da janela, ir até a geladeira de porta vermelha, abri-la, pegar um vinho tinto seco e bebê-lo no gargalo, deixando uma ou duas gotas escorrerem por seu pescoço branco de veias azuis, até sua camiseta branca velha e grande demais. Sempre a mesma camiseta. Cheia de manchas de vinho.

Seu cabelo, depois do vento, costumava ficar desgrenhado. Era castanho claro, liso, e não muito longo. Era liso por causa da chapinha, e por isso o vento o deixava desgrenhado. Então ela caminhava com o vinho na mão até a sala. Ligava o som no maximo e parava na frente do enorme espelho que sua enorme preguiça preferia manter encostado na parede a pendurá-lo como deveria ser feito. Era sempre o mesmo CD. Ela sabia as músicas todas de cor. A seleção que ele havia feito antes de ir. Antes de dizer que não conseguia aguentar aquilo da mesma maneira que ela. Antes de partir fazendo-a, na epoca, não entender que ele estava fugindo dela e não da vida que o assustava. Agora ela sabia, mas ouvir as músicas a ajudava a ignorar isso. O vinho também tinha seu papel nesse processo.

Ligava o som e deixava a introdução calma balançar seu corpo leve e ritmadamente. Subitamente as guitarras a faziam expodir em pulos e espasmos, jogando vinho para todos os lados, nas paredes tão manchadas quanto a camiseta. Sempre a mesma música. Sempre a mesma camiseta. Sempre as mesmas paredes.

Naquele final de dia o pôr-do-sol estava diferente. Ao contrario dos outros dias, ela vestia uma camiseta da mesma cor do vinho. Estava disposta a tentar disfarçar as manchas. Ao contrario dos outros dias, a garrafa já estava pela metade quando subiu no parapeito. Jamais o sol brilhara daquela cor. Jamais o vento soprara tantas promessas em seu rosto. Jamais a certeza de que o céu seria logo tomado pelas velozes letras dos créditos esteve tão presente em seu peito. Jamais seu coração bateu naquela velocidade. Jamais viram ela se erguer e ficar de pé no parapeito. Jamais souberam como era relaxante, para ela, a sensação do granito sob a palma de seus pés, que ao contrario das outras vezes, naquele dia estava frio. Jamais viram o sorriso em seu rosto quando, ao mesmo tempo em que o sol finalmente mergulhava no horizonte, ao mesmo tempo que o último compasso da última música do cd começava a tocar, ao mesmo tempo que a última gota de vinho molhou seus labios, o espelho encostado na parede refletiu seu mergulho.

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