Suicídios – Diálogo Introdutório (velharia reeditada)

O texto abaixo foi escrito há um tempão e tava lá mofando no esquecido Multiply. Resolvi buscar alguns textos por lá e largar por aqui, principalmente porque ando com muito pouco tempo e uma certa preguiça pra escrever. É o primeiro de vários textos que escrevi sobre suicídio na época.

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Suicídios – Diálogo Introdutório

– Descobri uma razão pra o suicídio. Na verdade, descobri uma boa azão. Provavelmente a melhor.
– Claro que descobriu.
– Não! É sério! Descobri mesmo!
– Tá, fala. Sei que não vai me poupar de ouvir mesmo.
– Quer mais cerveja?
– Quero.
– Bem, a teoria é simples. É bem óbvia.
– Tenho certeza que é. Inclusive tenho certeza que todo mundo sairá se matando depois de ouvi-la.
– Se as pessoas quiserem realmente ser felizes, certamente o farão!
– Ah! Agora sim tu te puxou!
– Tá! Escuta.
– Estou escutando há horas, mas tu não para de enrolar. Abre logo a cerveja!
– Bem… vamos começar de uma coisa banal: tu já deve ter sentido, mais de uma vez na vida, vontade de mandar tudo a merda e de sair fazendo outra coisa completamente diferente, alguma coisa que realmente te faça sentir o coração acelerado. Que faça a vida ficar com uma película um pouco menos chinelona do que a que se tem sempre. Não?
– Ah, sei lá!
– Sei lá? As vezes tu me decepciona.
– Tá bom! Claro que já pensei nisso. Todo mundo pensa!
– Exatamente! Todo mundo pensa! Todo mundo! Sem excessão!
– Sim, e daí?
– Daí que, se todo mundo pensa nisso, sem excessão, por que ninguém nunca faz?
– Ah! Não é bem assim! Volta e meia tem um que larga o emprego, procura uma ocupação completamente diferente…
– Simplesmente pra se arrepender depois, ou voltar para o que fazia antes, com o rabo entre as pernas!
– É. Acontece bastante.
– Sim, acontece. Mas por que ninguém larga tudo e resolve apostar o máximo que der em alguns poucos dias inesquecíveis? Mesmo quando tem certeza que fizesse, esses dias seriam realmente inesquecíveis?
– Ah, mas não se tem como ter certeza disso.
– Claro que não. Mas ter quase certeza já seria o suficiente, dependendo daquilo que fosse se viver, não acha?
– Com mais uma cerveja eu certamente concordarei.
– Já pego.
– Quando tu pensou isso tudo? Que tu tava fazendo?
– Não importa! Seguindo: milhares de pessoas no mundo passam todos os seus dias em uma rotina totalmente entediante, em vidas que não são metade ou absolutamente nada daquilo que elas queriam que fosse, loucas para criar coragem e mandar tudo pra puta que pariu e viver de uma maneira realmente intensa. Mas por alguma razão elas não mandam. Nunca mandam de verdade. Sabe qual a razão?
– Não. Qual é?
– Vamos chegar nela! Pra isso vamos analisar uma outra característica interessante das pessoas de hoje em dia.
– Tá bom, tá bom. Não tenho porra nenhuma melhor pra fazer mesmo.
– Para quieta!
– Tu devia ter estudado filosofia, isso sim.
– Tinha hippies demais no curso.
– Ainda tem.
– Tá! Não me faz perder o fio da meada.
– Que expressãozinha mais caquética!
– Não apurrinha.
– Outra.
– Ok. Assim… a sociedade de hoje não nos provém com muita emoção real em nossas vidas. Existe muito pouco risco, e muito medo de se arriscar. A coisa mais arriscada que se faz é andar sozinho de noite, e é porque podemos ser assaltados, e isso não chega a ser exatamente emocionante.
– As vezes pode ser.
– Tá, tu e tuas doenças.
– Mas pode.
– Fica quieta!
– Ok.
– As pessoas buscam meios como esportes radicais ou pequenas infrações para que consigam obter alguma adrenalina no sangue. Isso é uma das causas do crescimento veloz do número de hackers no mundo.
– Nunca tinha pensado nisso…
– Bem. O que acontece é que um meio bastante simples de encontrar essas emoções e essa adrenalina é o cinema. Existem pesquisas que dizem que o cérebro não compreende – no caso de algums filmes e mais ainda no caso de jogos de videogame e computador – que a pessoa não está vivenciado aquilo de verdade. Desse modo, as reações metabólicas que o corpo tem são praticamente as mesmas que teria se estivesse realmente vivendo aquilo.
– Interessante! Mas o que isso tem a ver com a tua teoria do suicídio feliz?
– Tu é a mulher mais impaciente que eu conheço!
– Anda logo.
– Tá bom. As pessoas assistem a centenas, milhares de filmes no cinema. Se identificam, muitas vezes sem nenhuma razão, com vários personagens. Heróis, heroínas, soldados, enfermeiras, estelionatários, serial killers. Os mais variados tipos de gente. As pessoas se colocam naquelas histórias e se deixam levar por elas, se emocionando com aquilo que elas nem mesmo vivem.
– E daí?
– Elas só conseguem se emocionar tanto com tudo que assistem porque as histórias têm um fim.
– Como assim?
– Elas acabam. Se eles fossem pensar em como a vida dos personagens seguiria depois que sobem os créditos, a emoção não seria a mesma.
– Toma.
– Bem gelada! Ótimo. Continuando. As pessoas acham a vida dos personagens melhores do que a deles porque ela acaba quando sobem os créditos.
– Tu é louco e bêbado, isso sim.
– Eu tenho razão! E aí está a ligação com o que eu tinha falado antes!
– Onde?
– A resposta do porquê das pessoas não jogarem tudo pra cima por um dia, uma semana, um mês de emoção absoluta.
– E qual é a resposta?
– Será possível que tu não nota?
– Estou com preguiça de pensar. Tu que inventou de me usar de vítima pra tuas teorias.
– Bêbada. A resposta é que as pessoas não jogam tudo pro espaço porque não sobem os créditos no final do dia! Depois delas viverem aquelas emoções que a fizeram largar tudo, ela sabe que a vida vai ter que retomar seu rumo normal. A velha, ou uma nova, rotina. As preocupações de sempre.
– Que horror! Faz sentido!
– Sim! Claro que faz! E é aí que eu descobri uma razão para o suicídio. Mais do que isso: a única e melhor razão para o suicídio. A única com uma jusificativa irrefutável.
– Irrefutável nessa tua mente doentia.
– Se tu parar pra pensar vai ver que tenho razão.
– Surpreendente! Logo tu que sempre disse que uma pessoa tem que ser um completo idiota pra resolver se matar.
– Eu estava errado.
– Outro milagre. Se bem que nem tanto. Admitir que tu mesmo está errado porque está certo em outra coisa não conta exatamente como admitir que estava errado.
– Que? Não entendi nada.
– Esquece.
– O fato é que se um dia tu acorda e vê que tem a chance de largar tudo, conseguir viver, sem quase nenhuma chance de não acontecer, o melhor dia de toda a tua vida. Um dia que te mantenha o coração acelerado o tempo todo. Com as melhores emoções, o melhor vento no rosto, o melhor beijo do mundo, o melhor orgasmo, uma fuga cheia de adrenalina. Tudo que tu sonhou pra tua vida se ela fosse um filme, entende? Então tu vai saber que chegou o momento. Larga tudo, vive tudo e no final do dia, te mata. Mas tem que se matar de maneira memoravel também.
– O que iria resultar em mais algum tempo de planejamento, né?
– Tem razão.
– Vou pegar um papel.
– O que? Pretende mesmo se matar?
– Não.
– Não acredita na própria teoria?
– Claro que acredito.
– Então pra que o papel? Vai planejar o jeito que vai morrer, não é?
– Vou.
– Mas não pretende se matar.
– Agora não.
– Claro.
– Ainda não chegou o dia.
– Mas?
– Mas vai chegar. E então é bom eu já ter uma morte memorável preparada pra não correr o risco de perder o momento.
– Claro. Perder o momento.
– Sim. Não deve haver nada mais deprimente do que perder o momento certo de se matar.
– Ah! Cala a boca!

3 Responses to “Suicídios – Diálogo Introdutório (velharia reeditada)”

  1. Bruno Says:

    a forma de se matar de maneira memorável era fazer as pessoas lerem isso e depois irem te fazer uma visita, né?
    hehe

  2. RAMiRO Says:

    Se tu for ver, o sentido da vida é morte mesmo… A vida passa para morte… É! Bem óbvia a teoria. =D

    hehehe

    Mas não te mata, nada… Acho que os créditos, aqueles que as pessoas queriam no final do dia, sobem quando tu começas a contar tuas histórias pros teus netos…

    Abraço..

    Obs.: Odeio ter que digitar o meu mail…

  3. RAMiRO Says:

    Odeio dizer/escrever odeio…

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